
A eleição presidencial colombiana levou para o segundo turno o empresário Abelardo De La Espriella, lançado pelo partido recém-criado Movimento Defensores da Pátria, e o senador Iván Cepeda, candidato do atual presidente, Gustavo Petro.

Direitista outsider, De La Espriella obteve 43,7% dos votos ao repetir o roteiro conhecido de surpresa eleitoral já vivido no Brasil. Estava em terceiro lugar há um mês e, na semana da votação, aparecia com 31% das intenções, crescendo de forma surpreendente na reta final. Ele superou a candidata do Centro Democrático, Paloma Valencia, que pode ser definida como representante da direita clássica.
De La Espriella é advogado penalista e ganhou o apelido de “El Tigre” pelo estilo de comunicação. Durante a campanha, usou o slogan “Firme por La Patria”, que tem como objetivo passar a mensagem de que ele será implacável em temas de segurança interna, inclusive com o uso do Exército para garantir Lei e Ordem. Tem alinhamento simbólico com Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele.
O slogan utilizado por Iván Cepeda foi “El Poder de la Verdad”, fazendo referência à sua atuação de militante de direitos humanos e à proposta de fazer uma revolução “pacífica e ética” no país com três sustentações: combate à corrupção, à pobreza e ao atual modelo de ocupação territorial (defende um sistema mais ecológico, com redistribuição de terras produtivas e programas de pacificação).
Quem ficou pelo caminho foi a direita tradicional, com apenas 6,9% dos votos. Herdeira do ex-presidente Álvaro Uribe, usou o slogan “Orden, Firmeza y Corazón”, disputando o tema da segurança interna com De La Espriella, mas trazendo a questão social. Suas pautas seguiram o receituário conhecido da defesa do livre mercado, do incentivo ao agronegócio, oposição frontal às reformas econômicas da esquerda e foco na segurança sob a ótica da doutrina tradicional do Estado colombiano. O apelo antissistema de De la Espriella, no entanto, acabou esvaziando completamente sua base eleitoral.
Cepeda, candidato do governo, foi mais forte entre pessoas com menos renda, jovens e universitários, classe média baixa e moradores de regiões periféricas. De La Espriella atraiu empresários, profissionais liberais, regiões metropolitanas e a atividade agropecuária. O discurso relacionado à segurança, no entanto, deu a ele forte entrada também entre os mais pobres, fragilizando Cepeda.
Não se deve fazer o espelhamento entre Colômbia e Brasil projetando o futuro. Na verdade, quando se olha para a histórica política do país vizinho, ele parece mais estar vivendo o que o Brasil já passou em 2018, com um outsider sem apoio no sistema tradicional introduzindo um discurso de direita sem rodeios.
Hoje, no Brasil, a direita outsider já se institucionalizou no Brasil, pegando seu ticket para o sistema pelo PL, partido histórico do centrão. Isso reforça que a Colômbia vive um outro momento e processo.
De todo modo, as características das agendas, a polarização, a urgência do tema da segurança interna e a incapacidade da esquerda de trabalhar essa agenda são aspectos comuns aos dois países.
Se Lula e Flávio Bolsonaro quiserem retirar lições da eleição colombiana, devem observar exatamente este aspecto. O candidato do PL deve compreender que há no tema da segurança um caminho para acessar eleitores em áreas geográficas controladas pelo PT e Lula deve saber que precisa adotar postura menos social e mais conservadora para não perder o eleitorado afligido pela violência.
