
A advogada da pré-campanha do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Maria Claudia Bucchianeri, afirmou nesta segunda-feira (20) que a estrutura de perfis falsos denunciada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) representa um esquema inédito de atuação digital. Segundo ela, a rede utilizava documentos falsos, linhas telefônicas e diferentes moedas, como dólares e pesos colombianos, para impulsionar conteúdos políticos nas redes sociais.

A declaração foi dada durante atendimento à imprensa na sede do TSE, em Brasília, após reunião entre o líder da Oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), que é o coordenador da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro; além do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques.
Também participaram da coletiva o advogado Marcelo Bessa e a própria Bucchianeri, autora da representação protocolada no tribunal.
Segundo a advogada, a equipe jurídica descobriu o esquema ainda em fevereiro, quando monitorava a biblioteca de anúncios da Meta.
“A campanha descobriu isso por acidente. Estávamos acompanhando os anunciantes e vimos perfis sem relevância contratando anúncios de até R$ 200 mil. Isso acendeu um sinal de alerta”, afirmou.
Ela explicou que, a partir desse momento, foi iniciada uma investigação própria que revelou uma estrutura organizada para criar e apagar perfis falsos de forma contínua.
“Estou há 20 anos cuidando de Direito Eleitoral. Nunca vi nada parecido. Aquilo que em 2022 a gente chamava de milícia digital virou menor infrator perto dessa estrutura”, declarou.
De acordo com Bucchianeri, o grupo utilizaria CPFs falsos para abrir contas nas plataformas, contratar anúncios e, em seguida, excluir os perfis para dificultar a identificação dos responsáveis.
“Não estou falando de robôs nem de fazenda de celulares. Estou falando de pessoas que conseguem CPF falso, criam contas, obtêm um meio de pagamento, fazem anúncios e depois apagam os perfis para não deixar nenhum rastro. Logo em seguida, criam outro bloco de perfis muito semelhantes”, disse.
A advogada afirmou ainda que parte dos impulsionamentos foi paga em diferentes moedas.
“Esses impulsionamentos foram pagos em reais, em pesos colombianos e em dólares. Não me perguntem por que pesos colombianos, mas foi isso que encontramos”, declarou.
Segundo ela, o esquema representa um desafio inédito para a Justiça Eleitoral.
“Hoje esse tiro de canhão está focado contra a direita, mas amanhã pode estar focado contra qualquer pessoa. A Justiça Eleitoral nunca se deparou com um desafio como esse”, afirmou.
Relatório reúne dados sobre milhares de perfis
Questionada sobre as provas apresentadas, Bucchianeri afirmou que a representação é acompanhada de um relatório detalhado com informações individualizadas sobre os perfis investigados.
“Foi apresentado um relatório imenso, com análise de um a um dos perfis, data de entrada, data de contratação, data de desativação, conteúdo, preço e movimentação. Há também gráficos que mostram uma atuação muito encadeada”, disse.
Segundo ela, a investigação da campanha utilizou apenas informações públicas disponíveis na biblioteca de anúncios da Meta. Agora, a expectativa é que o TSE determine o fornecimento de dados técnicos capazes de identificar os responsáveis.
“Chega um momento em que não conseguimos mais avançar apenas com fontes públicas. Precisamos saber quem pagou, de quem é o cartão de crédito, o CPF e a linha telefônica utilizada”, afirmou.
A advogada ressaltou que a ação protocolada não é uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), já que esse instrumento só pode ser utilizado após o registro oficial das candidaturas.
“Essa é uma representação especial. Ainda não existe um polo passivo definido porque os perfis não têm rosto. Precisamos descobrir quem são os responsáveis”, explicou.
Ela também afirmou que os levantamentos identificaram repetição de linhas telefônicas com DDD 41, do Paraná, embora ainda não exista conclusão sobre o motivo.
“O DDD que mais apareceu foi o 41. Não sabemos por quê. Precisamos descobrir se existe alguma organização ligada à venda de chips ou outra explicação para isso”, disse.
Segundo Bucchianeri, a dinâmica da rede dificulta a preservação das provas, já que os perfis costumam ser excluídos logo após o impulsionamento das publicações.
“Eles nascem, impulsionam e desaparecem. É muito provável que muitos dos perfis apresentados na ação já tenham sido apagados, inclusive com tentativa de eliminar os vestígios. Por isso pedimos segredo de Justiça”, afirmou.
Rogério Marinho pede identificação dos responsáveis
Na ocasião, Marinho afirmou que o objetivo da representação é identificar os autores da operação, sem antecipar conclusões sobre eventual participação de partidos ou agentes políticos.
“Não estamos acusando ninguém. Queremos que a investigação aconteça para identificar quem está por trás dessa ação criminosa, deliberada e planejada”, disse.
Segundo o parlamentar, a campanha identificou que os anúncios patrocinados eram compostos majoritariamente por ataques e conteúdos falsos, prática proibida pela legislação eleitoral quando impulsionada.
Marinho afirmou ainda que, entre os principais alvos da rede apontada na representação, estão o senador Flávio Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), e o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL-SC).
“Coincidentemente, são três pessoas da direita no Brasil”, declarou.
O que diz a ação
Na representação protocolada no Tribunal Superior Eleitoral, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro pede a retirada dos anúncios considerados irregulares e solicita que a Meta forneça dados como endereços de IP, informações cadastrais e registros de pagamento para permitir a identificação dos administradores das contas.
Segundo o documento, o monitoramento da biblioteca de anúncios da plataforma identificou 51 páginas com características semelhantes, responsáveis pela veiculação de 4.607 anúncios patrocinados entre março e o fim de junho. O levantamento aponta investimentos de aproximadamente R$ 3 milhões, além de US$ 20 mil e 42 mil pesos colombianos.
De acordo com a representação, as páginas possuíam poucos seguidores, mas alcançaram milhões de usuários por meio do impulsionamento pago. A estimativa apresentada à Corte é de que os conteúdos tenham atingido entre 77 milhões e 137 milhões de brasileiros. A petição sustenta que a distribuição dos recursos em dezenas de anúncios de menor valor ampliava o alcance das publicações e dificultava a identificação da operação pelos sistemas automáticos das plataformas.
