
Após a denúncia de que uma criança de 3 anos teria sido mordida dentro de um berçário em Goiânia pela própria diretora, novas acusações de mães e ex-funcionárias afirmam que, além da suposta agressão, alunos eram obrigados a dormir amontoadas no chão, em colchonetes sujos e salas superlotadas. Há ainda relatos de castigos, alimentação insuficiente e intimidação contra funcionários que tentavam denunciar os fatos. A direção nega todas as acusações.
Imagens enviadas ao Mais Goiás mostram crianças deitadas lado a lado, sem espaçamento adequado, em colchonetes no chão. De acordo com relatos, os colchões estavam sujos e, em alguns casos, mofados. “As salas eram superlotadas. As crianças dormiam todas juntas, amontoadas. Era tudo muito insalubre”, afirmou uma funcionária que preferiu não se identificar.
“Ela falava que um menino especial era ‘chorume’. Deixava ele fora da sala, no sol quente, de castigo. Eu presenciei muitas coisas, mas não conseguia provar”, contou uma ex-colaboradora que trabalhou no berçário por oito meses.
“Estou recebendo, uma atrás da outra, imagens de crianças deitadas em colchonetes, sem proteção. As funcionárias fizeram as imagens, mas não tinham coragem de fazer a denúncia por medo. Elas diziam que se sentiam ameaçadas. Que tinham medo de perder o emprego e sofrer represálias”, contou Bruna Araújo, mãe de Leonardo, que teria sido mordida pela diretora.
crianças x chao
Denúncia de mães e funcionárias afirmam que crianças dormiam em colchões sujos e, em alguns casos, mofados, em berçário de Goiânia (Foto: Arquivo Pessoal)
Fome e leite desaparecido
A alimentação das crianças é um dos pontos centrais das denúncias. De acordo com mães e ex-funcionárias, o que era apresentado aos pais não correspondia ao que era servido no dia a dia. “Ela (diretora) ganhava as mães dizendo que dava frutas, legumes e suco natural da fruta, mas não ofertava o básico”, afirmou a mãe de uma aluna de 1 ano.
Segundo os relatos, havia dias em que faltava comida. “Na maioria das vezes, para as crianças do período integral, era bolacha de água e sal e rosquinha. Quando tinha comida, não podia repetir. E quando os bebês não queriam comer, ficavam de castigo com fome”.
Ao procurar informações com as professoras do berçário, uma funcionária relatou para a mãe que o leite enviado para Leonardo sumia da geladeira com frequência.
“A gente procurava o leite dele para esquentar e não encontrava. As outras crianças mamavam e ele ficava olhando, triste. Eu pegava uma banana escondido para ele não ir para casa com fome. Isso aconteceu mais de uma vez. Depois descobrimos que a diretora pegava o leite”, contou a colaboradora, que reforçou que a situação não teria ocorrido apenas com Leonardo.
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Outra mãe de uma aluna de 2 anos relatou que a filha contou que a diretora costumava pedir parte do lanche enviado de casa. “Minha filha disse que ela ficava perto pedindo o lanche. Uma vez levou um salgadinho e ela comeu quase o pacote todo”.
Além disso, funcionárias relatam problemas de higiene na cozinha e presença frequente de baratas no local onde os alimentos eram armazenados.
Relatos de agressões e castigos
A mãe do menino, Bruna Araújo, contou que descobriu a suposta agressão na noite do mesmo dia em que o marido foi chamado à escola para ser informado de que o filho teria mordido um colega. “Ela falou na frente de outros pais: ‘Esse seu filho está agressivo, está mordendo’. Quando cheguei em casa, perguntei o que tinha acontecido. Ele olhou pra mim e disse: ‘Ela me mordeu, mamãe’”, relatou.
Segundo Bruna, o exame de corpo de delito apontou que a marca era compatível com mordida de adulto. A partir da divulgação do caso, outras mães e funcionárias começaram a procurá-la.
Um dos relatos é dos pais de uma menina de 2 anos retirou a filha da escola após 20 dias. “Ela chegou com marcas que não pareciam mordida de criança e um arranhão profundo. Em outra vez estava com a perna roxa. Quando perguntei a diretora, ela disse que minha filha tinha caído de um brinquedo. Achei estranho e tirei na hora”.
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Mãe denuncia agressão após filho de 3 anos ser mordido por diretora de berçario em Goiânia (Foto: Aquivo Pessoal/Bruna Araújo)
Outra ex-funcionária contou que pediu demissão após quase um ano no berçário e após a saída, uma mãe a encontrou em um supermercado afirmando que o comportamento do filho estava estranho. “Ela disse que pegou o filho chorando, feito xixi nas calças, de medo. Mas teve medo de denunciar”.
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Investigação e defesa
Bruna registrou boletim de ocorrência, procurou o Conselho Tutelar e acionou o Ministério Público. O caso é investigado pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Goiânia, que ressaltou já ter instaurado um inquérito para apurar o ocorrido e vai colher depoimentos nos próximos dias.
Em nota, o Berçário Escola Sonharte afirmou que as denúncias são falsas e que a instituição sempre prezou pela proteção das crianças. O advogado da escola, Danilo Vasconcelos, declarou que se trata de “acusação isolada e infundada” e que a investigação vai provar a versão da defesa.