
A percepção negativa da população sobre a economia segue como um dos principais desafios para a pré-campanha à reeleição do Lula O quadro persiste apesar de indicadores oficiais apontarem crescimento do PIB, inflação sob controle e taxa de desemprego em nível historicamente baixo.
Pesquisas recentes mostram que a maioria dos brasileiros sente perda de poder de compra, dificuldade maior para conseguir emprego e preços elevados no supermercado. Segundo levantamento Genial/Quaest, 61% afirmam que o poder de compra é menor do que há um ano. Para 58%, os alimentos ficaram mais caros no último mês. Outros 43% avaliam que a economia piorou.
A percepção negativa é mais forte nas regiões Sul e Sudeste. No Nordeste, predomina a avaliação de que está mais difícil encontrar trabalho. Os dados contrastam com os números oficiais: o desemprego fechou novembro em 5,2%, o menor da série histórica do IBGE, e o IPCA encerrou 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta.
Para especialistas, o problema vai além dos indicadores. A diretora da Ipsos-Ipec, Márcia Cavallari, resume o descompasso: “A percepção da população é de que os preços ainda estão altos”. Segundo ela, o desafio do governo é transformar números positivos em melhora concreta no cotidiano.
O economista Hugo Queiroz aponta que o ambiente político dividido amplia a leitura negativa do cenário econômico, mesmo diante de avanços pontuais. Ele afirma que o crescimento não tem sido percebido como ganho real de qualidade de vida. “O que pesa mesmo é a percepção de que, mesmo crescendo, você não tem conseguido melhorar a sua qualidade de vida”, disse.
Segundo Queiroz, o crédito caro é um dos fatores centrais. “Os juros estão escorchantes, altos para caramba. Qualquer financiamento ou empréstimo custa caro, a parcela ocupa espaço no orçamento, e isso tira a sensação de bem-estar”, afirmou. Para ele, a inflação também segue pressionando despesas essenciais. “Mesmo sendo baixa para os padrões brasileiros, ela ainda é alta no bolso. Gastos com saúde e educação, que pesam mais para a classe média, incomodam muito.”
O economista avalia que a combinação entre Selic elevada, inflação percebida acima do índice oficial e ausência de perspectiva fiscal reforça o pessimismo. “Você tem financiamento caro, inflação real alta e nenhuma sinalização de melhora. O governo não ajuda porque continua gastando. Com desequilíbrio fiscal, os juros seguem altos e essa sensação permanece se o modelo econômico for mantido”, disse.
Analistas de opinião pública também destacam o peso da polarização. Mauro Paulino afirma que há uma sensação de insegurança generalizada, que vai além da economia. “Não é só violência. É insegurança econômica, alimentar e em relação ao futuro”, afirmou. Para ele, a precarização do trabalho e a informalidade reforçam essa percepção, mesmo com desemprego baixo.
O cenário dificulta a conversão de indicadores positivos em aprovação política. Segundo a Genial/Quaest, 56% dos entrevistados afirmam que Lula não merece mais quatro anos no cargo. A desaprovação do governo chega a 49%, contra 47% de aprovação.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reconhece a dificuldade. Em entrevista recente, afirmou que a economia pode não ser decisiva na eleição, mas admitiu que indicadores positivos nem sempre se traduzem em apoio político em um ambiente polarizado.
Especialistas avaliam que, enquanto a percepção cotidiana não mudar — especialmente no custo de vida e no acesso ao crédito —, os dados macroeconômicos tendem a ter impacto limitado sobre a avaliação do governo.
