
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) divulgou ontem (14) a relação de igrejas e líderes evangélicos que tiveram pedidos de convocação ou de quebra de sigilo aprovados no âmbito da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. A publicação ocorreu após cobrança pública do pastor Silas Malafaia, que exigiu a divulgação de nomes citados em investigações sobre fraudes contra aposentados.
A senadora afirmou que foi autora do requerimento que resultou na criação da CPMI do INSS, instalada em 2025, e que atua como membro titular desde o início dos trabalhos. Segundo ela, todas as informações divulgadas constam em documentos oficiais, como Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e dados da Receita Federal, e tiveram aprovação formal da comissão.
“As informações mencionadas são públicas e constam em requerimentos apresentados e aprovados pela Comissão, amplamente divulgados e acessíveis à sociedade”, escreveu a parlamentar em nota publicada nas redes sociais.
Na manifestação, Damares listou pedidos apresentados ao longo da investigação, entre eles solicitações de transferência de sigilo e convocações para depoimento.
Igrejas com pedido de quebra de sigilo:
Adoração Church
Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo
Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch)
Igreja Evangélica Campo de Anatote
Líderes religiosos citados em requerimentos de convite ou convocação:
André Machado Valadão
Cesar Belucci do Nascimento
Péricles Albino Gonçalves
Fabiano Campos Zettel
André Fernandes
(Veja quem são os líderes abaixo)
Também consta pedido específico de quebra de sigilo envolvendo André Machado Valadão.
A senadora declarou que a eventual participação de instituições religiosas ou líderes evangélicos em esquemas de fraude no INSS lhe causa “profundo desconforto e tristeza”, mas ressaltou que a CPMI tem dever constitucional de apurar os fatos “com responsabilidade, imparcialidade e base documental”.
Reação de Malafaia
A divulgação ocorreu após Malafaia anunciar que faria um vídeo para confrontar a senadora. O pastor reagiu a declarações dadas por Damares em entrevista ao SBT News, nas quais ela afirmou que a comissão havia identificado “grandes igrejas” e “grandes pastores” ligados às fraudes e relatou pressões para que as investigações não avançassem.
Em novas postagens, Malafaia acusou a senadora de generalizar acusações e afirmou que a lista divulgada não corresponderia ao que ele considera “grandes denominações”.
“A acusação foi leviana e denigre de maneira geral a Igreja Evangélica”, escreveu.
Em vídeo, o pastor afirmou:
“Ou a senhora dá os nomes ou a senhora é uma leviana linguaruda”.
Quem são os líderes evangélicos citados:
André Machado Valadão
Pastor evangélico, cantor gospel e uma das principais lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão integra a cúpula de uma das maiores denominações evangélicas do país, com atuação no Brasil e no exterior. Também é empresário e figura recorrente em debates políticos e religiosos, com forte presença nas redes sociais e influência sobre o público evangélico.
Na CPMI do INSS, o nome de Valadão aparece em requerimentos aprovados de convite e de apuração, em meio à ampliação do foco da comissão sobre possíveis conexões entre entidades religiosas, fintechs e estruturas financeiras investigadas por descontos indevidos em benefícios previdenciários. Até o momento, não há decisão judicial que o vincule diretamente a irregularidades.
Cesar Belucci do Nascimento
César Bellucci do Nascimento é pastor e uma das principais lideranças da Sete Church (Ministério Deus é Fiel Church). Com atuação concentrada no meio evangélico, passou a ter projeção nacional após o avanço das investigações da CPMI do INSS, que ampliaram o foco para apurar possíveis vínculos entre igrejas, entidades associativas e esquemas de descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Em reportagem publicada pelo Metrópoles em outubro de 2025, Bellucci admitiu ter recebido doações pessoais do empresário Felipe Macedo Gomes, investigado por ligação com associações que faturaram cerca de R$ 700 milhões com descontos irregulares de aposentadorias. Segundo o pastor, Gomes pediu de volta um carro BMW e um relógio Rolex que havia doado, após se desligar da igreja. Bellucci negou que a Sete Church tenha sido usada para lavagem de dinheiro, afirmou que desconhecia o setor de atuação do empresário e disse que ele nunca solicitou a devolução das ofertas feitas diretamente à igreja. O nome do pastor também consta em requerimentos de convite aprovados pela CPMI do INSS, sem acusação formal até o momento.
Péricles Albino Gonçalves
Péricles Albino Gonçalves é identificado como liderança da Igreja Evangélica Campo de Anatote, denominação citada em requerimentos da CPMI do INSS. Sua atuação é majoritariamente religiosa, com pouca exposição nacional fora do meio evangélico.
O nome do pastor consta em pedidos de convite para depoimento, aprovados pela comissão, dentro da linha de investigação que apura o uso de associações, igrejas e entidades para operacionalizar descontos irregulares em benefícios previdenciários. Não há, até o momento, acusação formal ou responsabilização judicial atribuída a ele.
Fabiano Campos Zettel
Fabiano Campos Zettel é advogado e pastor da Igreja Bola de Neve. Além disso, é fundador e CEO da Moriah Asset, fundo de private equity voltado a investimentos no setor de wellness (bem-estar). Nas redes sociais, ele define a companhia como o “primeiro e maior veículo de investimentos” do segmento no país.
Zettel ganhou projeção fora do meio religioso por seu vínculo familiar com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, instituição citada em investigações paralelas. Ele chegou a ser detido brevemente no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando se preparava para embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, mas foi liberado depois.
André Fernandes
Pastor e evangelista ligado à Igreja Batista da Lagoinha, André Fernandes atuou na liderança da unidade Lagoinha Alphaville, em São Paulo, até agosto, quando deixou o cargo ao lado da esposa, Quezia Fernandes, para assumir um novo projeto ministerial com foco evangelístico. O casal anunciou nas redes sociais a inauguração de uma nova igreja na capital paulista.
A nova iniciativa, batizada de Celeiro, será instalada em um galpão no bairro de Santo Amaro, imóvel que anteriormente abrigava a Igreja Mundial do Poder de Deus. O espaço tem capacidade para até 20 mil pessoas, estacionamento para centenas de veículos e área construída de aproximadamente 46 mil metros quadrados. Em publicações recentes, André e Quezia afirmaram que o ministério terá como eixo central a oração e a expectativa por manifestações espirituais. Fernandes também consolidou presença relevante nas plataformas digitais, onde reúne um público expressivo interessado em temas relacionados à fé, propósito e vida cristã.
Como funcionava o esquema com os líderes religiosos
De acordo com a CPMI do INSS, o núcleo religioso investigado teria atuado como porta de entrada para vítimas em situação de vulnerabilidade. A estratégia descrita pela comissão incluía a abordagem direta de idosos em templos ou o uso da autoridade moral de pastores para induzir o fornecimento de dados pessoais. Com essas informações, operadores do esquema registrariam autorizações fictícias para descontos e ativariam empréstimos consignados sem o conhecimento das vítimas.
“Templos e igrejas apareceram na apuração como possíveis canais de captação de aposentados e pensionistas para descontos indevidos”, afirmou a senadora Damares Alves. Segundo a investigação, o funcionamento da fraude seguia três etapas: captação dos beneficiários, inserção de autorizações irregulares e repasse dos valores a instituições financeiras envolvidas. A primeira fase ocorreria dentro de ambientes religiosos, onde fiéis eram orientados por pessoas de confiança.
Na etapa seguinte, contratos eram formalizados de forma eletrônica, sem consentimento real. Por fim, bancos e correspondentes bancários efetuariam os descontos diretamente nos benefícios mensais, enquanto operadores do esquema recebiam comissões e repassavam parte dos valores a intermediários. A CPMI aponta que a fraude também alcançava empréstimos consignados celebrados sem ciência dos beneficiários. “Além dos descontos ilegais, aposentados e pensionistas relataram prejuízos com empréstimos consignados que não conheciam”, disse a senadora.
Nota a Imprensa – atuação da CPMI do INSS e investigação envolvendo instituições religiosasBaixar
Damares afirmou ainda que a prática envolve diversas instituições financeiras. “Consignados não é só Banco Master. Nós estamos diante de um escândalo absurdo. Onde chegamos não tem mais caminho de volta”, declarou. Segundo a parlamentar, a comissão passou a enfrentar resistência após a inclusão de instituições religiosas nos documentos analisados. “Quando se fala em um grande pastor, vem a comunidade: ‘não falem, não digam, não investiguem, porque os fiéis vão ficar muito tristes’”, relatou, ao mencionar pressões de igrejas, bancos e políticos.
O relatório preliminar da CPMI deve ser apresentado em fevereiro, de acordo com o presidente da comissão, Carlos Viana.
A próxima fase da CPMI
A CPMI do INSS apura um esquema nacional de descontos indevidos e empréstimos consignados irregulares aplicados contra aposentados e pensionistas. Segundo a comissão, milhares de documentos já foram analisados, há pedidos para suspensão de milhões de contratos considerados suspeitos e apurações em curso sobre o envolvimento de entidades privadas.
O presidente da CPMI, Carlos Viana (Podemos-MG), informou que os parlamentares devem apresentar em fevereiro um balanço preliminar dos trabalhos. O encerramento está previsto para março, mas há defesa de prorrogação por mais 60 dias.
A comissão realizou 28 reuniões em 2025, ouviu 26 testemunhas e analisou cerca de 4.800 documentos. Entre os próximos passos, está o pedido ao Supremo Tribunal Federal para a suspensão imediata de quase 2 milhões de contratos de consignado sob suspeita de irregularidades.