
Só um cara como Lula para passar a perna em um cara como Alexandre de Moraes. Ao que tudo indica, o petista conseguiu que Donald Trump retirasse a Magnitsky contra o ministro em troca de nióbio e terras raras, e da promessa de resolver o problema internamente. Ingênuo, Moraes ainda agradeceu a Lula no evento do SBT, sem imaginar a armadilha que parece ter sido montada pelo presidente com ajuda da Globo e do Itaú, essencialmente.
Quem conhece Lula sabe que ele já vinha duvidando da parceria com Moraes desde que identificou a articulação entre o ministro, o ex-presidente Michel Temer e o cacique Gilberto Kassab para eleger o governador Tarcísio de Freitas para o Planalto em 2026. Essa turma experiente realmente achava que o tripresidente desistiria de um quarto mandato sem lutar?
Logo agora, que José Dirceu planeja uma ‘revolução’? Ora bolas, a história demonstra que o ex-sindicalista sempre usou o poder para negociar mais poder, mesmo entregando “a causa”. Neste caso, a ‘causa’ da defesa da democracia esgotou-se, perdeu sua utilidade política, que era obter a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro.
O que Moraes não entendeu ainda é que virar a página do bolsonarismo também é virar a página do combate ao bolsonarismo, o que significa aposentar seu herói, agora apresentado pela Globo como um fardo moral. O caso Master, aqui, encaixa-se com perfeição às circunstâncias.
Como se sabe, Daniel Vorcaro avançou rapidamente no mercado de aplicações, impulsionado pela XP, pelo BTG e pelo Nubank, que embolsavam até 5% de comissão para empurrar a milhões de clientes pessoa física os CDBs do Master, que tinham promessa de rendimento de até 140%.
Alavancado pela Faria Lima e com apoio de bastidor do Centrão, Vorcaro também conseguiu entrar no restrito mercado de RPPS, o regime previdenciário dos servidores. Foi aí que o Master começou a incomodar gente grande, como o Itaú, líder privado em gestão e maior custodiante de ativos do Brasil, com interesse estratégico no mercado de RPPS.
A GUERRA COMEÇOU NO MERCADO
Para quem não sabe, o banco dos Moreira Salles compete ativamente para que prefeituras e institutos de previdência municipal aloquem suas reservas em seus fundos de renda fixa e multimercados. Mesmo que o dinheiro não esteja investido em um produto do Itaú, o banco ganha taxas para processar e guardar os ativos desses fundos.
Ao gerir a folha de pagamento ou manter relacionamento com institutos de previdência municipais, por exemplo, tem facilitada sua entrada no mercado de crédito consignado para servidores públicos municipais, um setor de baixíssimo risco e altíssima rentabilidade.
O que Vorcaro talvez não tenha entendido é que mexer com o Itaú é mexer com a Globo, maior destino de seu investimento em mídia e parceira histórica em diferentes projetos editoriais. Não à toa, a Revista Piauí, dos Moreira Salles, foi a primeira a ‘alertar o mercado’ sobre a atuação agressiva do Master; o Globo entrou na campanha em seguida.
Destacou, não repórteres comuns, mas seus principais colunistas — Lauro Jardim e Malu Gaspar (ex-Piauí) — para expor as vísceras do banqueiro topetudo.
Ao farejar a mudança de humor do mercado em relação ao Master, André Esteves (BTG) se afastou da operação dos CDBs e teria começado a abastecer os jornalistas com detalhes picantes da rotina de excessos de Vorcaro e de suas incursões no mundo político.
Enfraquecer Vorcaro, longe do interesse republicano de melhorar o ambiente de negócios, pareceu mais uma estratégia para atender o desejo do BTG de adquirir a participação do banqueiro mineiro na mineradora Itaminas, dona de reservas de alto teor de ferro, estratégica para a descarbonização do mercado global — diretriz de gestoras globais como a Black Rock, investida no BTG.
A estratégia, porém, não deu certo. Como Vorcaro logo sacou a sabotagem, decidiu vender sua participação de 50% para os próprios fundadores da Itaminas, frustrando os planos de Esteves e o irritando ainda mais. Hoje, atribui-se ao dono do BTG o vazamento para Lula da informação sobre o contrato do Master com Viviane Barci e os telefonemas de Moraes para Gabriel Galípolo.
FATOR TRUMP
O enredo envolvendo o ministro do STF acabou se tornando o trunfo para Lula e seus embaixadores paraestatais – Joesley Batista e André Esteves — convencerem Donald Trump a retirar a suspender o tarifaço, retirar a Magnitsky, com a promessa de que o problema Moraes seria resolvido internamente.
O ministro mantinha relacionamento bancário com Itaú, BTG e outros grandes players. Todos foram notificados pelo Departamento do Tesouro americano, o que trouxe elevado risco de restrições para suas operações nos EUA, prejudicando indiretamente a própria operação brasileira da Black Rock, que também investe pesado no Itaú e vem costurando parcerias com o governo federal e os governos estaduais.
Não é coincidência que a Black Rock também invista pesado na J&F, do ‘embaixador Joesley’, impulsionando seu projeto de expansão de R$ 38,5 bilhões até 2026. Como detalhei antes, o dono da JBS EUA foi crucial para a retirada da Magnitsky; não para aliviar Moraes, mas para dar uma vitória política para Lula, pacificar a relação bilateral e turbinar a reeleição do petistas com novos investimentos.
O movimento atual da Black Rock é inverso ao demonstrado no último ano do governo de Jair Bolsonaro, quando anunciou a suspensão de investimentos até a virada de governo.
GEOPOLÍTICA DAS TERRAS RARAS
Embora até hoje Lula não tenha se pronunciado sobre o preço oferecido a Trump para obter a retirada da Magnitsky, é quase senso comum de que a negociação envolveu o acesso dos EUA a projetos de exploração de terras raras e outros minerais estratégicos, como o nióbio.
Nessa equação, os Moreira Salles possuem posição privilegiada com a CBMM, maior produtora de nióbio do planeta, controlando entre 75% e 80% da oferta mundial do mineral e com reservas que podem durar 400 anos. Todo sabem da relação história da família com a elite econômica americana, em particular com os Rockefeller.
Os interesses envolvidos, portanto, vão muito além do caso Master e Lula entendeu isso rapidamente, hipotecando a militância radical que o apoiou da cadeia à rampa do Planalto para um terceiro mandato — e domando o ímpeto de Janja. No Supremo, a ficha ainda está caindo, precipitando também a queda de Moraes, usado e descartado por um poder maior, infinitamente maior.