
Com estruturas que transpõem a serra paulista do planalto ao litoral, o complexo Henry Borden - formado por duas usinas hidrelétricas - se funde à paisagem da cadeia de montanhas da Serra do Mar. Com quase 100 anos de história, já foi alvo de bombardeio durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e ajudou a alavancar o desenvolvimento industrial do Estado de São Paulo. Hoje, mantém sua importância estratégica interligada ao sistema nacional de energia.
o g1 visitou o complexo, em Cubatão (SP), que foi considerado até 1970 a maior usina hidrelétrica com potência instalada do Hemisfério Sul . Marco da engenharia hidrelétrica do início do século passado, com uso de relevo de alta queda para geração de energia, o modelo foi superado por projetos de menor impacto ao meio ambiente.
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A Henry Borden pertence à Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE). A estatal foi privatizada pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicamos), no ano passado, em leilão realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). A unidade foi adquirida por R$ 1,04 bilhão para o Fundo Phoenix de Investimentos em Participações Multiestratégia.
Inaugurado em 1926, o complexo tem capacidade máxima de 889 megawatts/hora, quantidade de energia capaz de abastecer uma cidade com 2 milhões de imóveis, considerando indústrias e comércios.
“Desprezando a indústria e perdas durante a transmissão, a energia é suficiente para abastecer 4,2 milhões de residências”, explicou Emerson Laube, coordenador de operações da usina.
Apesar disso, desde 1992, para se adequar à legislação estadual ambiental que só permite o bombeamento das águas do Rio Pinheiros para o Reservatório Billings em situações emergenciais, a Henry Borden teve sua operação regulada. Mesmo assim, estrategicamente, o complexo ainda serve como reserva ao sistema. (leia abaixo)
Complexo Henry Borden fica no sopé da Serra do Mar, em Cubatão (SP) — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Complexo Henry Borden fica no sopé da Serra do Mar, em Cubatão (SP) — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
'Backup '
No início da operação, as usinas abasteciam toda a Baixada Santista e a região sudeste de São Paulo. “Tem linha de transmissão que sobe [a serra]. Em toda a região do ABC Paulista foi possível o crescimento porque tinha a usina Henry Borden", afirmou Laube.
Atualmente, a capacidade máxima das usinas não é utilizada diariamente. O complexo Henry Borden serve como backup [reserva] do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o coordenador, o SIN funciona como um “anel”, onde todos os geradores conectam as respectivas usinas e, de lá, quando necessário, as transmissoras retiram energia.
“As nossas unidades ficam rodando e conectadas no sistema, mas não estão gerando energia. Numa necessidade do sistema, por exemplo, se teve um problema em Itaipu ou em Angra, automaticamente o SIN liga para a sala de controle e solicita energia", explicou.
Emerson Laube é o coordenador de operações do complexo Henry Borden — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Emerson Laube é o coordenador de operações do complexo Henry Borden — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
De acordo com ele, o complexo é acionado pelo sistema interligado de forma sazonal, pois as usinas só conseguem gerar o que o SIN está consumindo.
“Quando o consumidor aumenta o consumo dele, o SIN despacha a gente. Então, entramos no horário de pico. Tem época que é praticamente todo dia, no final da tarde, que a gente sobe para carga máxima e início da noite a gente diminui.”, disse o coordenador.
Usinas: externa e subterrânea
Complexo Henry Borden é composto por duas usinas hidrelétricas: externa (à esq) e subterrânea (à dir) — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Complexo Henry Borden é composto por duas usinas hidrelétricas: externa (à esq) e subterrânea (à dir) — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
O complexo Henry Borden tem 14 grupos de unidades geradoras de energia: 8 na usina externa, capaz de gerar até 469 megawatts/hora, e 6 na subterrânea, com capacidade de geração de 420 megawatts/hora. Juntas, geram 889 MW” .
Parte da usina externa do complexo chama atenção de quem passa pelas rodovias de acesso ao litoral sul paulista, por conta dos oito longos tubos cravados na Serra do Mar e que podem ser vistos de longe.
Há quem pense que as tubulações são usadas para transporte de combustível, mas o grupo de adutoras transporta a água do reservatório Billings para alimentar as unidades geradoras da usina. A represa Billings foi construída, inicialmente, para atender a Henry Borden.
A parte subterrânea da usina foi construída numa caverna com 120 metros de comprimento, 21 de largura e 39 de altura.
Como a água chega às adutoras do complexo Henry Borden❓Na época da construção das usinas, a solução inédita foi reverter o fluxo dos rios da capital - que seguem rumo ao interior - e assim gerar energia lançando água em direção à descida do litoral . O projeto foi considerado inovador.
A partir do fim da década de 1980, no entanto, foi acirrada a disputa entre os movimentos ambientalistas e o setor industrial, beneficiado pela energia. As restrições ambientais ao sistema de reversão culminaram em uma legislação que proíbe o bombeamento de águas de rios poluídos para o reservatório Billings.
Para regulamentar esse dispositivo legal, foi emitida, em 1992, uma Resolução Conjunta, que permite a operação de reversão apenas em situações emergenciais, entre as quais o controle das cheias do rio Pinheiros em casos de ameaças de enchente na cidade de São Paulo.
INFOGRÁFICO: Henry Borden tem importância história e estratégica para SP — Foto: Arte/g1
INFOGRÁFICO: Henry Borden tem importância história e estratégica para SP — Foto: Arte/g1
Grande queda d'água
A queda d'água, entre a altura do reservatório e o ponto onde está a casa de força, tem 720 metros de altura, o que rende outro título à Henry Borden: o de uma das 10 maiores usinas do mundo com esse tipo de queda.
No Brasil, a Usina Antonina "Governador Parigot de Souza", no Paraná, também tem se destaca com mais de 700 metros de queda. Para comparação, a Usina de Itaipu, segunda maior do país, no Sul, tem sua barragem principal em relevo, mas a 196 metros de altura, correspondente à altura de um prédio de 65 andares.
Um bonde funicular foi construído para realizar o transporte dos trabalhadores responsáveis pela construção das adutoras na Serra em Cubatão. O equipamento é utilizado ainda hoje por equipes que realizam a manutenção nas tubulações.
O trajeto do bonde tem aproximadamente 11 minutos e passa até por debaixo da Rodovia Caminho do Mar. Em determinados pontos, a inclinação chega a 45° (veja abaixo).
Bonde funicular do Complexo Henry Borden passa debaixo da Rodovia Caminho do Mar — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Bonde funicular do Complexo Henry Borden passa debaixo da Rodovia Caminho do Mar — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
O monitoramento das usinas é feito pela sala de controle. Um computador envia os comandos para os dispositivos eletromecânicos do complexo — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
O monitoramento das usinas é feito pela sala de controle. Um computador envia os comandos para os dispositivos eletromecânicos do complexo — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Trajeto da água
A água que abastece a usina sai do reservatório Billings, é lançada no canal de ligação Billings-Pedras e se acumula no reservatório do Rio das Pedras. De lá, é conduzida por túneis até adutoras, que descem a Serra do Mar até o complexo Henry Borden.
INFOGRÁFICO: Por dentro do complexo Henry Borden — Foto: Arte/g1
INFOGRÁFICO: Por dentro do complexo Henry Borden — Foto: Arte/g1
Construção da Usina da Serra em Cubatão em dezembro de 1926 — Foto: Fundação Energia e Saneamento/Arquivo
Construção da Usina da Serra em Cubatão em dezembro de 1926 — Foto: Fundação Energia e Saneamento/Arquivo
História
Muitas pessoas sabem que o complexo Henry Borden foi essencial para a industrialização do Polo de Cubatão, mas o impacto ao Estado de São Paulo é menos conhecido.
“Quando foram inauguradas e, aos poucos, tendo a capacidade implantada, praticamente dobrou a geração de energia do estado de São Paulo”, afirmou Laube.
Segundo ele, isso refletiu no impulsionamento do crescimento industrial do estado de São Paulo.
Complexo Henry Borden foi essencial para desenvolvimento do Polo Industrial de Cubatão — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Complexo Henry Borden foi essencial para desenvolvimento do Polo Industrial de Cubatão — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo para derrubar o Governo Federal Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova constituição para o Brasil, o complexo Henry Borden foi bombardeado.
Em 28 de julho de 1932, hidroaviões lançaram duas bombas na região de Cubatão e uma atingiu a sala de controle da usina, perfurando o teto e estilhaçando as janelas. "A intenção foi parar a geração de energia elétrica e, dessa forma, parar as fábricas que as tropas paulistas estavam utilizando para fabricar o material bélico deles contra o governo Getúlio Vargas”, explicou. Ninguém ficou gravemente ferido.
Complexo Henry Borden possui 14 unidades geradoras: 8 da usina externa e 6 da subterrânea — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Complexo Henry Borden possui 14 unidades geradoras: 8 da usina externa e 6 da subterrânea — Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna Jornal
Usinas e o meio ambiente
De acordo com o engenheiro civil e pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes, José Manoel Ferreira Gonçalves, o complexo Henry Borden pode ser considerado um “marco da engenharia brasileira”, mas a construção não seria possível atualmente, por causa dos impactos ambientais.
“É uma concepção de obra pública típica do século passado. A preocupação central era gerar energia a qualquer custo, com pouca atenção aos impactos ambientais e sociais”, disse Gonçalves.
De acordo com ele, um projeto de hidrelétrica com adutoras cavadas na Serra do Mar teria diversos obstáculos nos dias de hoje. “Porque a Serra do Mar é uma das áreas mais importantes, em termos de valor ecológico, do planeta, reconhecida como patrimônio natural da humanidade, inclusive. E a legislação ambiental do nosso país evoluiu”, explicou o engenheiro, que é presidente da Associação Guarujá Viva - Água Viva.
Gonçalves, que também é advogado, jornalista e cientista político, disse que a legislação atual exige estudos de impacto ambiental e social que barrariam um projeto com os mesmos moldes do complexo Henry Borden.
“A engenharia, portanto, dispõe de alternativas tecnológicas mais importantes, mais seguras, mais limpas, menos agressivas. Tem energia solar, eólica, biomassa, sistemas híbridos combinam diferentes fontes e, em muitos casos, oferecem uma eficiência maior até do que as hidrelétricas tradicionais”, disse.
Apesar disso, o engenheiro não nega a importância histórica das hidrelétricas de Cubatão e reconhece a estratégia usada para localização do complexo Henry Borden. “É uma usina estratégica, localizada numa região também muito estratégica, não só porque gerava energia para o polo industrial petroquímico de Cubatão, mas também pela dificuldade de acesso [ao local]. Havia, portanto, uma proteção natural. Mas, agora, os tempos são outros. A engenharia evoluiu”, ressaltou.
Para ele, um projeto de recuperação ambiental na Serra do Mar seria uma boa alternativa para mitigar os impactos causados na construção das usinas. “Restaurar tudo o que for necessário”, sugeriu Gonçalves, dizendo que o mundo vive uma realidade em que a sustentabilidade se tornou eixo central de projetos de engenharia.
“É preciso usar toda a boa engenharia para recuperar o passivo ambiental daquela região e manter o que existe bem bonito ali, de maneira, inclusive, histórica”, finalizou o engenheiro.
Vila residencial
Uma vila residencial privativa fica próxima às usinas e é voltada para os trabalhadores do complexo Henry Borden. O local conta com uma escola que inicialmente atendia somente filhos de funcionários, mas hoje em dia é aberta ao público geral por meio de uma concessão para a prefeitura.
Aproximadamente 30 famílias moram na vila e a usina possui trabalhadores durante 24h. Os funcionários trabalham por turnos de seis pessoas. “Três operadores na sala de controle, em campo mais um operador e dois na usina subterrânea".
