
Brasília adora uma cortina de fumaça e a passagem de Javier Milei pela convenção do PL em São Paulo serviu de prato cheio para o establishment. Sem papas na língua e com o modo “motosserra” ligado, o presidente argentino chamou Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e referiu-se ao ministro Alexandre de Moraes como “lixo careca”. Desde então, a mídia do pix só fala em ataque à soberania brasileira, falta de decoro e diplomacia.

A gritaria histérica que tomou conta da Praça dos Três Poderes tem método: tenta nos vender a tese perigosa de que concordar com Milei — ou simplesmente rir de sua fala sem filtro — é um atentado contra o Estado Democrático de Direito e a soberania brasileira. Será?
A narrativa oficial, rapidamente orquestrada pelo Planalto e ecoada por associações de juristas que vivem do acesso a gabinetes do Supremo, trata cinicamente a democracia brasileira como uma flor de estufa, tão frágil que murcha diante dos gritos de um libertário descabelado no palanque vizinho.
A verdade inconveniente é que a indignação coletiva com Milei é, acima de tudo, um teatro de conveniência próprio de regimes autocráticos. A reação histérica serve ao propósito de transformar algozes em vítimas e desviar a atenção social dos indícios de envolvimento de Lulinha com o roubo do INSS ou da suspeita de envolvimento de Moraes com o caso Master.
É mais fácil se indignar com xingamentos do que a inflação e a miséria galopantes, o rombo fiscal e os desvarios jurídicos que tratam nossa Constituição como papel higiênico.
Para boa parte da população que acompanhou os desdobramentos e as condenações da Lava Jato, a fala de Milei soa como constatação nua e crua de um fato histórico que o sistema tentou apagar na canetada, mas que permanece gravado na memória de todos.
Assim como a ofensa a Moraes apenas espelha uma indignação legítima diante da perseguição política a Jair Bolsonaro — e agora a Flávio — e seus apoiadores. Rir das falas de Milei, ou achar que ele tem razão no mérito, é apenas lidar honestamente com fatos reais, já reconhecidos até por governos e judiciários dos EUA, da Itália, da Espanha e da própria Argentina.
Tentar transformar isso em “interferência externa” ou “ameaça institucional” só reforça a percepção geral sobre a Juristocracia que se instalou no país desde o inquérito das fake news, em 2019. Inquérito que, pasmem, segue aberto até hoje como instrumento de coerção social e perseguição política geral.
Tais abusos já entraram há tempos no radar de Donald Trump, justificando a retaliação via tarifaço. Ontem, a Casa Branca renovou o decreto de emergência nacional em relação ao Brasil, reiterando os mesmos argumentos contra reiteradas decisões ilegítimas por parte do Judiciário de Mores e do governo de Lula, indicando que uma eleição antidemocrática não será reconhecida pelos EUA.
Não se preocupem com o que Milei fala, mas com o que Trump pode fazer.
