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Caso Henry Nowak mostra que o Reino Unido optou pela empatia suicida
Publicado em 02/06/2026 11:17
Últimas Notícias

Tive que insistir para conseguir ver o vídeo da morte do jovem britânico Henry Nowak, esfaqueado por Vickrum Digwa tarde da noite numa quarta-feira, em 3 de dezembro de 2025, na cidade de Southampton, sul da Inglaterra. As imagens foram liberadas pelas autoridades britânicas ontem.

Henry Nowak, ferido fatalmente, é algemado e segurado ao chão por policiais. Foto: Hampshire Police.

Eu não queria ver. Não que as imagens sejam particularmente chocantes, não aparece sangue. O horror maior é de natureza moral: a tenra idade da vítima, as mentiras do assassino e seus cúmplices, a negligência da polícia e os motivos para essa negligência.

 

Reconstrução dos fatos

Os fatos foram reconstruídos no julgamento do assassino. Nowak, 18 anos de idade, caminhava de volta para sua acomodação estudantil na Universidade de Southampton depois de sair com amigos. O juiz afirmou na sentença, contudo, que ele não estava bêbado. A graduação alcoólica no sangue do jovem estava em níveis nos quais ainda haveria permissão para dirigir.

 

 

O estudante estava sozinho e desarmado. Ao caminhar nas proximidades da residência de Digwa, 23 anos, Nowak teria notado que o homem carregava uma lâmina de 21 cm na cintura. No julgamento, a defesa de Digwa alegou que se trata de uma obrigação cerimonial da religião sikh. No entanto, ele também carregava uma adaga menor e menos perigosa no pescoço, o que já era suficiente para satisfazer o rito religioso.

 

O estudante teria feito um comentário sobre a arma branca visível. Imagens de seu celular mostram-no chamando Digwa de “homem mau” — o juiz considerou o tom espirituoso, mas não provocativo. Digwa então decidiu escalar, se aproximando de Nowak e confirmando que ele era um “homem mau”. As imagens da vítima terminam aí. O assassino tomou o celular.

 

Durante a briga, o turbante de Digwa, outro adereço obrigatório de sua religião, caiu de sua cabeça.

 

O que aconteceu em seguida não tem testemunhas, mas os resultados da interação indicam que Digwa, talvez em retaliação a uma tentativa de Nowak de recuperar o celular, esfaqueou-o quatro vezes com a adaga maior: um golpe fatal no peito e três outras facadas, além de um corte no rosto.

 

O golpe fatal penetrou as costelas superiores, atingiu o pulmão e cortou uma veia importante atrás da clavícula. O laudo do médico legista diz que Nowak sangrou 1,2 litro por dentro e não teria sido salvo por paramédicos. Duas facadas nas pernas e uma na parte inferior do abdômen são consistentes com o fato de que o jovem tentou fugir pulando uma cerca. Ele caiu sobre um carro estacionado na frente da casa vizinha. As imagens da câmera de lapela do policial mostram Nowak caído entre o carro e a soleira da casa.

 

 

Cumplicidade da família e negligência policial

Em vez de chamar uma ambulância, o assassino filmou a vítima tentando fugir. Digwa já estava mentindo, dizendo a Nowak que ele não foi esfaqueado, provavelmente para convencer testemunhas.

 

Enquanto preciosos minutos passavam, Vickrum Digwa elaborou sua mentira, alegando que havia sido vítima de racismo de Henry Nowak. O juiz afiram que o jovem não disse nada racista.

 

O irmão de Digwa, Gurpreet, aparentemente acreditando na mentira, ligou para a polícia e repetiu a história. Ele alegou que não existia nenhuma arma arma na cena e que não havia ferimentos fatais.

 

A mãe de Digwa, Kiran Kaur, tem menos álibi que o irmão: ela ativamente agiu para esconder a arma do crime. Ela foi condenada por auxiliar o assassino.

 

As imagens da câmera de lapela mostram o policial perguntando a Digwa se ele estava ferido. “Sim, estou com um olho inchado, um pequeno hematoma”, ele alegou, o que não é corroborado nas imagens.

 

O policial se aproxima de Nowak, que estava sendo posto sentado pelo pai de Digwa. “Ele fica caindo para os lados, então estou tentando deixá-lo sentado”, disse o pai. “Ele está com a boca cheia de sangue, não quero que ele…”

 

“Qual é o seu nome, amigo?”, pergunta o policial. A resposta de Nowak não é audível. “Alguém mais se machucou além dele?” Vickrum Digwa responde “Sim, eu. Ele agarrou meu irmão. Arrancou meu turbante, começou a agarrar minha cabeça”.

 

 

No chão, sobre brita, Nowak emite um grunhido. “Certo, vamos te tirar daí?”, diz o policial, arrastado o jovem meio metro da frente para o lado do carro.

 

“Não consigo respirar”, diz Nowak. “Pegue o outro braço dele”, diz o policial a uma colega. Os dois policiais o ajudam a se sentar, e o que porta a câmera pergunta o que aconteceu. “Eu fui esfaqueado”, diz o estudante.

 

“Você foi esfaqueado? Onde? Não acho que você foi, amigo”, diz o policial, sem checar. Com seu colega, deitam Nowak novamente para algemá-lo.

 

O jovem solta mais um grunhido e com dificuldade repete “não consigo respirar”. A resposta: “ponha a mão na algema, amigo”. “Não consigo respirar”, diz o jovem pela terceira vez. As algemas fazem um clique, ajustadas aos pulsos nas costas de Nowak. “Não consigo respirar”, ele repete.

 

“Ele está dizendo que foi esfaqueado, então cheque”, diz o policial. “Onde foi que você foi esfaqueado?”, pergunta a outra policial. Nowak não tem tempo de responder. “No rosto? Temos que checar, não é?”

 

O primeiro policial não age sobre a sugestão, em vez disso diz a ela (ou a outro colega) que afaste as pessoas ao redor e colha suas informações enquanto ele segura Nowak.

 

“Por favor, não consigo respirar”, implora Nowak. “Vamos te deixar deitado de lado, amigo”, diz o policial. Ele conversa com a colega, repetindo que pretende manter a vítima deitada de lado, e a informa que Nowak não gostou quando foi posto sentado.

 

 

“Qual é o seu nome, amigo?”, pergunta o mesmo oficial. O estudante não responde. “No momento, você está preso. Por agressão”, diz a autoridade, recitando então os direitos de defesa do detido. “Certo?”, ele checa, enquanto Nowak, em silêncio, tem um leve espasmo contraindo o abdômen. “Acho que ele vai passar mal”, comenta o policial. Segundo se passam, Nowak parece não estar mais consciente.

 

Finalmente, a policial mulher checa o rosto do estudante e diz em seu comunicador que é necessária uma ambulância. “As pupilas dele nem estão reagindo”, ela comenta. As imagens terminam aí, junto com a vida de Henry Nowak.

 

O uso cínico de acusação de racismo

O podcaster e comentarista político russo-britânico Konstantin Kisin comentou, no X, que a Grã-Bretanha fez muitas homenagens ao americano George Floyd em 2020. “Nossos políticos se ajoelharam em massa para mostrar seu ultraje por sua morte. ‘Não consigo respirar’ virou um slogan.”

 

“George Floyd morreu do outro lado do mundo. Ele não era britânico. Henry Nowak era britânico e a forma como foi tratado pela polícia foi chocante e negligente ao extremo. Mesmo assim, não há minuto de silêncio. Não há campanha pública coordenada. Não há atletas se ajoelhando em eventos esportivos. E todos nós sabemos por quê.”

 

Para Kisin, o movimento Black Lives Matter e o identitarismo “criaram uma hierarquia racial de vitimização onde um criminoso de carreira que morreu por maus tratos da polícia num país estrangeiro com nenhuma evidência de racismo, como George Floyd, é automaticamente santificado por causa da cor de sua pele. E Henry Nowak, um homem britânico, um de nós, é automaticamente ignorado por causa da cor da pele dele. Este é o fruto feio do assim chamado ‘antirracismo’, uma obsessão com raça que criou uma sociedade de duas castas em que as pessoas são tratadas de forma diferente por causa da cor de sua pele”.

 

 

O dono da rede social em que Kisin fez o comentário, Elon Musk, tem promovido com entusiasmo um novo livro do acadêmico líbano-canadense Gad Saad, de título “Empatia suicida”.

 

Na Amazon, o texto de chamada do livro de Saad diz que a obra é um alerta. “Pare de ignorar seus instintos de sobrevivência em nome do politicamente correto. Isso não é apenas uma política errônea; é a expressão última de uma cultura que está escolhendo ativamente a sua própria derrocada”.

 

No mês passado, Saad, especialista em comportamento do consumidor, mandou uma mensagem para o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, na mesma rede social. “Você parecia muito sentido quando George Floyd, o criminoso condenado americano, morreu nos Estados Unidos. Mas você não está nem um pouco emocionado por seu próprio cidadão, Henry Nowak, ter sido assassinado e pela polícia ter sido cúmplice de sua morte. Você vai se ajoelhar pelo Sr. Nowak, ou só faz isso por criminosos americanos de cor”. O termo “pessoa de cor”, aludido com sarcasmo por Saad, foi promovido pelo próprio progressismo identitário.

 

No X, Starmer não publicou nenhuma postagem mencionando Nowak. Mas, quando Digwa foi condenado, o mandatário britânico publicou uma nota em que chamou o caso de “horrível” e expressou solidariedade aos entes queridos da vítima, sua cidade e universidade. Ele defendeu mais restrições ao porte de armas brancas.

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