
Por Anne Dias, advogada e fundadora do Instituto Amplifica*
Desde 2019, o Brasil vive a mais grave crise institucional envolvendo o Judiciário em sua história. E qual foi o papel da imprensa ao longo desse período? Quantos veículos denunciaram abusos de poder sem medo, sem concessões e sem panos quentes? Onde estavam as vozes dispostas a expor ilegalidades quando isso significava enfrentar o próprio Supremo?
Só agora, em 2026, vemos aquilo que é chamado de imprensa tradicional se posicionando diante dos abusos do STF no caso do Banco Master. Foi necessário chegar a um contrato de R$ 3.5 milhões por mês envolvendo a esposa de um ministro, quase 80 vezes o salário do próprio magistrado. Foi preciso descobrir que um ministro é proprietário de um resort com cassinos, vinculado a fundos de investimento que facilitaram a fraude bancária. E ainda temos o fato de que esse mesmo ministro julga o próprio caso. Era necessário chegar a esse ponto para que finalmente surgissem vozes críticas dentro da imprensa brasileira?
Há anos o STF se alinha a um projeto político, enquanto a imprensa tradicional reage com silêncio ou complacência. O inquérito das fake news foi tratado como normalidade mesmo quando resultou em censura. O termo “use sua criatividade” veio à tona após um ministro orientar um assessor a encontrar meios de censurar um jornal, e ainda assim não vimos uma reação proporcional em defesa da liberdade de imprensa. Ministros passaram a ocupar espaços de entretenimento e entrevistas amistosas, recebidos mais como celebridades do que como autoridades que precisam ser questionadas. Uma imprensa que só se posiciona quando o escândalo se torna inevitável certamente não nos representa.
Mas se você está lendo esse texto, você sabe que não está sozinho. Que há vozes, ainda que poucas, prontas para defender a institucionalidade do nosso país. Cláudio Dantas é uma delas. À época sócio da revista Crusoé, esteve entre os primeiros alvos do inquérito das fake news, conduzido por Alexandre de Moraes. A Crusoé foi censurada após publicar a reportagem “O Amigo do Amigo de Meu Pai”, que revelava que Marcelo Odebrecht se referia a Dias Toffoli, então presidente do STF, com esse codinome em documentos enviados à Lava Jato. A matéria foi retirada do ar por ordem judicial, a revista foi multada em R$100 mil e até comentários de leitores passaram a ser investigados. Diante desse cenário, ele poderia ter recuado. Não recuou. Seguiu defendendo publicamente a liberdade de imprensa e os limites ao poder institucional.
O problema não é falta de vozes. É falta de espaço. Quem incomoda e não se curva ao sistema encontra portas fechadas.
Eu sou uma dessas vozes. Construí minha trajetória entendendo a política por dentro, trabalhando em think tanks, partidos, campanhas e até disputando eleição. Estudei e trabalhei nos Estados Unidos, inclusive no Cato Institute, aprofundando minha defesa da liberdade de expressão. Voltei ao Brasil para atuar diretamente no debate público. Hoje estou diariamente na imprensa como comentarista. Mas sei que sozinha mudo pouca coisa.
É nesse ponto que nasce o Instituto Amplifica. Inspirado na iniciativa americana Young Voices, da qual tenho o privilégio de fazer parte na turma de 2026, o Amplifica surge com um objetivo claro: formar e projetar novas vozes no debate público brasileiro. Por meio de treinamento estratégico, preparo técnico e conexão com a imprensa, o instituto identifica pessoas com boas ideias e potencial, mas que ainda não encontram espaço para serem ouvidas. Nosso compromisso é capacitá-las e conectá-las aos ambientes onde as decisões e as narrativas realmente se constroem.
O projeto piloto acaba de ser lançado e as inscrições estão abertas. Queremos formar a próxima geração de comentaristas, colunistas, jornalistas e, por que não, políticos preparados para sustentar ideias com clareza e responsabilidade. Se você deseja ter sua voz amplificada, inscreva-se. Se não pretende atuar diretamente como comunicador, mas acredita na importância de fortalecer essas vozes, apoie o projeto. O Instituto Amplifica é uma iniciativa sem fins lucrativos e depende de doações para continuar formando pessoas comprometidas com o debate público. Sua contribuição é essencial.
Sim, nós acreditamos no Brasil. Mesmo que nossas vozes estejam baixas diante do barulho do sistema, sabemos que elas têm força. Não aceitamos corrupção como regra, nem um Estado inchado como destino. Acreditamos em liberdade, responsabilidade e prosperidade. E sabemos que o país que merecemos viver não será construído pelo silêncio, mas por quem decide se posicionar. Vamos juntos amplificar vozes capazes de transformar o debate público e construir o futuro que precisamos.