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Ex-príncipe preso ofereceu a Epstein acesso à USAID em investimento
Publicado em 20/02/2026 11:32
Últimas Notícias

A liberação de milhões de páginas de documentos sobre o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein, em 30 de janeiro, pelo Departamento de Justiça dos EUA (DoJ), finalmente gerou uma prisão: a de ninguém menos que o ex-príncipe britânico Andrew Mountbatten-Windsor, que já havia perdido seu título real por causa do envolvimento com Epstein.

 

A detenção na manhã desta quinta-feira (19) aconteceu não por causa de crimes libidinosos, mas porque Andrew teria compartilhado documentos confidenciais do governo britânico. No dia de seu aniversário de 66 anos, ele foi preso na mansão de Sandringham, no leste da Inglaterra, que pertence ao seu irmão, o rei Charles III.

 

Em nota, o monarca expressou preocupação e disse que “a lei deve seguir seu curso”. O primeiro-ministro Keir Starmer, que está quase perdendo o cargo por ter nomeado outro amigo de Epstein como embaixador nos EUA, fez coro: “Ninguém está acima da lei”.

 

 

Entre os delitos dos quais o ex-príncipe é suspeito, ele teria compartilhado relatórios de visitas comerciais, encaminhado informações confidenciais sobre investimento no Afeganistão e passado um documento do Tesouro britânico a um contato pessoal de negócios.

 

O que revelam os Epstein Files sobre a conduta de Andrew

Os exatos arquivos revelados que comprometem Andrew não foram apontados pela polícia do Vale do Tâmisa, que também tentou manter em sigilo a identidade do homem sob custódia, sem sucesso. Mas a imprensa tem apurado quais provavelmente são esses documentos.

 

Em um e-mail de 30 de novembro de 2010, Andrew, identificado como “O Duque” (título de nobreza que ele tinha, Duque de York), encaminhou para Epstein uma mensagem que recebeu de um assessor. “Senhor, por favor encontre em anexo os relatórios de visitas do Vietnã, Singapura, Hong Kong e Shenzhen [na China] relacionados à sua visita recente ao Sudeste da Ásia”, escreveu o assessor Amit Patel. A mensagem indica a anexação de quatro documentos de texto referentes a cada localidade; os anexos não estão disponíveis no site do DoJ.

 

As horas indicam que, entre o recebimento e o encaminhamento dos documentos, passaram-se apenas cinco minutos.

 

Em outro e-mail de Andrew para Epstein, enviado na véspera de Natal de 2010, o ex-príncipe explica a natureza do anexo: “um relatório confidencial produzido pela Equipe de Reconstrução da Província de Helmand [no Afeganistão] para Oportunidades Internacionais de Investimento”. As informações “não são exclusivamente sobre Helmand, mas têm foco principal nessa província”.

 

Andrew disse que também ofereceu a oportunidade de investimento a outros contatos de sua rede, “incluindo em Abu Dhabi”, e que queria o conselho de Epstein sobre quem mais estaria interessado. “Infelizmente, descobri que a Fundação Gates não faz nada no Afeganistão”, acrescentou.

 

Neste caso, o anexo está disponível. As oportunidades de investimento tratavam de commodities na área da agricultura, como a produção de romãs e outras frutas, trigo e outros cereais; na área dos minerais, incluindo ouro, irídio, lítio e urânio; além de oportunidades de retorno em investimentos envolvendo o antigo governo afegão e acesso às embaixadas dos EUA e do Reino Unido, além da USAID “para facilitar investimento e desenvolvimento de exportações”.

 

 

Na época, Andrew tinha a função pública de enviado especial do Reino Unido para o comércio.

 

Andrew cometeu crimes sexuais? A acusadora imperfeita

A acusação mais clara de crime sexual contra o ex-príncipe partiu de Virginia Giuffre, que cometeu suicídio em 2025. Segundo autos de um processo de 2019, obtidos pela procuradoria do Distrito Sul de Nova York, ela alegou ter sido “emprestada” a Andrew para sexo por Epstein aos 17 anos.

 

Nos arquivos, há uma foto de Giuffre sorrindo entre Andrew, com uma mão na cintura da mulher, e a colaboradora de Epstein que está presa por tráfico sexual de menores, Ghislaine Maxwell.

 

A foto, de 2001, foi um dos principais motivos para Andrew Mountbatten-Windsor ter perdido seu título real. Em uma entrevista à BBC em 2019, ele alegou que não tinha nenhuma memória de ter se encontrado com Giuffre. “Não me recordo dessa foto ter sido tirada”, comentou o irmão de Charles, sugerindo também que a imagem tivesse sido manipulada.

 

Giuffre alegou ter sido forçada a fazer sexo com Andrew na mansão de Epstein em Manhattan e em sua ilha caribenha, Little St. James.

 

Uma parte importante dessa história, contudo, está sendo pouco comentada. Em um memorando de 86 páginas sobre o caso, os procuradores de Nova York comentaram que foram “incapazes de corroborar as narrativas de Giuffre sobre ser ‘emprestada’ a outros homens para sexo”.

 

Contudo, eles afirmam que conseguiram “corroborar sua narrativa de ter sido recrutada por Maxwell, abusada sexualmente por Epstein e [ter ajudado a] recrutar outras garotas menores de idade para fornecer massagens sensuais pagas para Epstein em sua residência em Palm Beach [Flórida]”.

 

 

Não foi a única dúvida dos procuradores sobre a credibilidade de Giuffre. Eles descrevem um depoimento dela em 2016 em que Giuffre “admitiu ter mentido sobre seu histórico de emprego em seu currículo, admitiu ter queimado notas escritas à mão que ela havia produzido sobre suas experiências com Epstein e Maxwell, e admitiu que passou a um repórter a informação equivocada de que ela foi abusada por Epstein por quatro anos, quando ela esteve com ele por cerca de dois anos”.

 

Para essas autoridades, a acusadora apresentou “inconsistência interna” não apenas ao longo do tempo, mas até dentro de uma mesma entrevista em 9 de setembro de 2019. Ela também ficou “especialmente combativa” quando perguntaram por detalhes específicos de suas alegações, por exemplo, em que ocasiões específicas ela havia sido “traficada” por Maxwell. Giuffre rebateu com irritação, mas não respondeu à pergunta.

 

Outras vítimas de Epstein citadas no relatório relataram “não se lembrar de algum pedido para fazer sexo com qualquer homem além de Epstein”.

 

Outro detalhe: “Ela também confirmou que recebeu um total de quase US$ 200 mil por declarações e pela foto do príncipe Andrew que ela forneceu à [jornalista] Sharon Churcher”, do tabloide Daily Mail, geralmente considerado uma publicação sensacionalista.

 

Curiosamente, o memorando foi deletado dos Epstein Files pelo DoJ. Encontre uma cópia neste link.

 

Andrew pagou cerca de 12 milhões de libras a Giuffre para resolver a questão fora das cortes, segundo o jornal The Telegraph. Uma grande soma para uma acusadora tão imperfeita.

 

 

Outras fotos do ex-duque de York nos documentos são mais comprometedoras, mostrando-o de quatro sobre uma mulher cuja face foi coberta com tarja preta pelo DoJ. Ninguém sabe, ainda, quem era a mulher ou se a interação era não consensual.

 

Em suma, apesar da fúria do público, especialmente os britânicos, ainda não está muito claro que Andrew tenha cometido crimes sexuais e, se cometeu, não foi formalmente acusado até hoje e foi preso por outras razões.

 

Andrew manteve, contudo, amizade com Epstein bem depois de ele ter sido preso em 2008 por solicitar prostituição de uma adolescente menor de idade.

 

A revista britânica The Economist analisou mais de 650 mil e-mails da caixa de Epstein em colaboração com os programadores por trás do site Jmail.World, que converteram os PDFs para páginas parecidas com o Gmail. A publicação também usou inteligência artificial para analisar o conteúdo.

 

Tirando os correspondentes que eram funcionários de Epstein, ele tinha uma marcada preferência por se comunicar com pessoas famosas. Um quarto de seus contatos, excetuando funcionários, tem verbetes na Wikipédia sobre eles. Eram 18 bilionários, como Peter Thiel e Elon Musk, celebridades como Woody Allen e Deepak Chopra, personalidades da política como o ex-premiê israelense Ehud Barak e o ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, e acadêmicos como o linguista Noam Chomsky e o economista Larry Summers.

 

 

A revista também pediu à IA que classificasse as mensagens pelo conteúdo mais “perturbador”. Andrew não aparece entre os correspondentes mais frequentes, nem nessas mensagens. Elas também não incluem conteúdo que seja claramente pedofílico. A preferência de Epstein, conforme o depoimento da brasileira Marina Lacerda sobre si mesma, era por vítimas entre os 14 e os 16 anos. Documentos como a acusação formal de 2019 feita pelo DoJ corroboram essa informação.

 

Caso condenado, ex-príncipe corre o risco de prisão perpétua

O palácio real de Buckingham, a moradia principal do rei em Londres, expressou interesse em ajudar na investigação policial, o que pode ser um indício de que já houve visita dos investigadores em busca de comunicações do ex-príncipe.

 

Caso condenado, Andrew poderá responder pelo crime de má conduta em cargo público, para o qual a lei britânica prevê a pena máxima de prisão perpétua. No ano passado, o governo trabalhista propôs um projeto de lei para deixar a definição do crime menos vaga, prevendo penas entre 10 e 14 anos.

 

Para a condenação, a acusação precisa preencher quatro pré-requisitos: mostrar que o réu é uma autoridade pública, que negligenciou suas obrigações ou cometeu má conduta propositalmente, que a conduta foi um abuso da confiança do público e que não há desculpa ou justificação razoável.

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